Ser vítima parece ser mais fácil que assumir o erro





Quantas vezes falamos sem parar, sem pensar e sem ouvir o outro lado? Quantas vezes agimos feito crianças no auge de sua imaturidade e damos as costas após despejarmos um tonel lotado de injúrias pútridas em alguém que talvez nem tenha feito nada para nós? Muitas vezes. Tantas que sequer podemos contá-las sem sentirmos aquela pontada de vergonha no fundo do peito. E, por algum motivo confuso que ainda carece de investigação, colocamos em nossas cabeças que é normal escutarmos apenas as partes convenientes, balançarmos os ombros displicentemente e ignorar o resto por quanto tempo a consciência ou as circunstâncias permitir. Como seres humanos aprendemos as virtudes dos erros e os pesares dos acertos, todavia tendemos a inserir virtudes demais nos erros – mais ou menos o suficiente para termos certeza que estamos certos –  e de forma notoriamente conveniente tecemos uma rede de proteção surda inabalável. Torcemos o nariz quando compartilhamos um acontecimento desagradável e o interlocutor dá razão àquele que em nossa mente é o vilão da história, alimentando mentalmente rancor por mais esse novo integrante do “complô” contra nós. Transformamo-nos em seres obcecados pela aprovação incondicional de atitudes, mesmo as controversas; mesmo as absurdas; mesmo as que reconhecemos como incoerentes. Basta acreditar que o mundo está contra nós e que somos tão corretos quanto o fio afiado de uma faca para nos desligarmos da realidade sem pestanejar, pois é muito melhor viver dentro de um globo de neve onde a perfeição existe e ela se resume a você. Em contrapartida, ao optarmos por assumir o papel de vítimas também abrimos mão da determinação inerente a todo indivíduo que leva-o a sair da estaca zero e buscar novos horizontes para si. Nos acomodamos de modo confortável nas costas daqueles que serão os eternos condenados pelas nossas faltas e desarranjos. Realizamos um sequestro relâmpago, roubando as opiniões, a felicidade, a vontade de viver, a identidade de alguém que declaramos ser um agente do mal que ameaça nossa integridade. E nem pedimos resgate em virtude da intenção suprema escondida por debaixo dos panos: continuarmos a estar certos. Sempre certos. Tão certos que até o vento tem de desviar dos nossos corpos para não nos irritarmos com ele.

Insistimos em andar reto em um caminho torto como se a intervenção divina fosse acontecer a qualquer momento e uma enorme placa justificando nossos atos fosse surgir do além e sequestrar quem ainda acha que tem poder o suficiente para nos desafiar. Aparentemente essa é uma narração cruel demais para ser realista, porém basta voltar ao questionamento inicial para assegurar-se que a crueldade não está nas pessoas atingidas, nem no texto, está em nós. A busca por um conselho tem de ser feita de maneira aberta, livre de barreiras e honesta, senão nada além de críticas (inexistentes) serão ouvidas e aumentadas por nossa mente acostumada a ter razão.


Pai Alan Barbieri




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