Umbanda, candomblé e kardecismo: Diferenças essenciais

Atualizado: 23 de Nov de 2018

Um breve esclarecimento sobre as diferenças e particularidades dessas três religiões.


Engana-se quem acredita que a doutrinação obrigatória dos colonizadores amenizou os castigos sofridos pelos negros. Pelo contrário, estava mais do que claro que a intenção dos algozes era apenas arrancar o último fio de esperança que ligava os escravos à liberdade; aqueles infames agressores, estrategistas homicidas, violentavam as almas dos pobres coitados para evitarem revoltas maiores que seriam incapazes de conter sozinhos. Chicoteavam as costas cor de ébano já marcadas profundamente pela raiva desferida em outras ocasiões de segunda a domingo, mas neste último dia amansavam o senso de injustiça crescente em suas vítimas ignorando os cânticos suplicantes numa língua estrangeira. Fingiam crer que eles estavam realmente a reverenciar os santos católicos enfiados goela abaixo sem saliva ou água. Permitiram, sem querer, que nascesse um  culto a todos os orixás velado pelo sincretismo. O ato bondoso terminava por ali, porque seria completamente lúdico – na visão deles – permitir que suas posses, compradas a um preço alto, saíssem cortando galinhas e oferecendo para entidades demoníacas capazes de fornecer riquezas e bênçãos nos terreiros de suas fazendas. Estes já deveriam dar-se por satisfeitos por estarem vivos e capazes de praticar secretamente suas “magias de negro” após a passagem do tribunal do Santo Ofício da Inquisição pelo Brasil. Oprimidos e excluídos da sociedade pela elite branca, os negros foram reunidos, ainda no século XVIII, onde a alforria era o prêmio máximo, em suas próprias irmandades religiosas repletas de preconceitos e limitações. Estas irmandades concediam aos homens e mulheres que falhavam em conquistar o prêmio já citado fugirem do domínio de seus senhores por algum tempo que fosse e reencontrarem outros de suas origens. As contribuições dos afiliados não somente constituíam uma forma de negociação da liberdade, um enterro digno cristão mesclado aos cantos africanos, capital para pagar advogados e a permissão para a construção de igrejas para negros, como também foram de vital importância para a formação dos primeiros candomblés na Bahia. A diplomacia nos terreiros garantiu a dominância dos iorubás, que agregaram novos deuses ao seu panteão e reservaram um pequeno espaço para o que seria a base do trabalho umbandista: Os Guias espirituais. Uma característica notável do espiritismo é a categorização de espíritos e afastamento daqueles que não se adequam ao nível de evolução considerado mínimo para transmissão de falas aos crentes. A manifestação de caboclos e pretos-velhos nas mesas kardecistas foi nomeada como “baixo-espiritismo”, declarando em alto e bom tom o descontentamento de seguidores influentes e formadores de opinião com tal forma “peculiar” de atendimento. Curiosamente aqueles que se contrapõem à ortodoxia do kardecismo e asseguram que os velhinhos e indígenas por arquétipo são tão evoluídos quanto os doutores rejeitam, mesmo assim, o uso de elementos como cachimbos, charutos, bebidas, velas e ervas posto que este seria um sinal claro de regressão espiritual. A datar das discordâncias iniciais, a umbanda afastou-se grandemente dos ensinamentos de Kardec e assumiu sua própria identidade enquanto era perseguida pelos católicos, espíritas e candomblecistas. Ironicamente, os cultos que formaram a herança da umbanda discriminavam-a às claras. O vocábulo “umbanda” ganhou renome com Zélio Fernandino de Moraes, em 15 de novembro de 1908, na ocasião em que o próprio recebeu o Caboclo das Sete Encruzilhadas na Federação Espírita de Niterói contra todas as normas do regente da sessão. Assim como informado no parágrafo anterior, a exteriorização de entidades do “baixo-espiritismo” era uma afronta completa aos dogmas pregados nos centros e o estabelecimento de uma religião baseada no culto à essas entidades dentro de um deles provocou uma rachadura no – até então – impecável caminho kardecista para a evolução.  Uma nova alternativa de ascenção aos céus havia brotado.


Pai Alan Barbieri




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